Personagens:
Betão: 30 anos, de terno preto. Traz a arma na cintura.
Elias: 30 anos, de terno preto e arma em punho.
Num apartamento.
Os dois entram. Betão parece tranqüilo e Elias chega apressado e apreensivo. Betão vai até o sofá, tira o terno e senta-se. Enquanto isso, Elias tranca a porta e vai verificar se as janelas estão fechadas. Ele volta e espia pelo olho mágico da porta.
Betão – O que é que tu tá fazendo?
Elias – Me certificando de que não tem ninguém atrás da gente.
Betão – Ô, trouxa, a gente matou o cara. Como é que ele vai vir atrás da gente?
Elias – Ah, Betão, nunca se sabe.
Betão – Um matador com medo de fantasma?
Elias guarda a arma na cintura.
Elias – Que matador! A gente é segurança.
Betão – E o que é que tu acabou de fazer? E no sábado, aquilo foi o quê? Acorda, mané!
Elias – Eu... é verdade. Fui eu que tive que desenrolar essas paradas no final das contas.
Betão – Hei, o que é que tu tá falando? Eu tava lá também.
Elias – É, mas quem puxou o gatilho fui eu.
Betão – E daí? Vai ficar contando defunto agora, ou o problema é bala?
Elias – Você fica aí dando uma de valentão, mas na hora de puxar o gatilho sempre sobra pra mim.
Betão – Vou te contar, mas como tu é furreca, hein?
Elias – Que furreca! É verdade.
Betão – Por essas e outras, várias, é que eu me arrependo de trabalhar contigo, brother. Acho que fiquei noiado depois que Deus me levou o Vado e aí te escolhi sem querer.
Elias – Deus? Que Deus, Betão? O cara tinha pra mais de trinta mortes nas costas!
Betão – Mas era o melhor cara que eu já esbarrei. Fora que ele não acreditava em Deus... Então, de certa forma, não deixa de ser um castigo encontrar com ele.
Elias – Ele deve é ter sido recebido pelo diabo com um abraço apertado.
Betão – Que diabo, mané diabo! Tá maluco? Tu não tem nada que falar dele, porque até morto ele é melhor do que tu.
Elias – Então pede pra ele atirar nos caras por você da próxima vez.
Betão – Ele descia o dedo mesmo e não ficava fazendo essas continhas mixurucas pra ficar jogando na cara depois. O Vado era homem. Coisa que o franguinho assustado aí nem desconfia o que seja.
Elias – Mas acho que você vai ter que se conformar... Porque sou eu que tô aqui vivinho. Já ele tá lá: morto, mortíssimo.
Betão – Sabe que às vezes eu acho que Deus não é lá muito inteligente?
Elias – Mas alfabetizado ele é. Escreve tudo certinho.
Betão – Tu é um escroto, mesmo. Um burro muito mais chucro do que eu. Fica puxada a nossa convivência, vou te contar... O Vado era esperto como ele só. Equilibrava. Mas contigo dá até desgosto!
Elias – Ah, vá pra uma mesa branca pra ver se teu macho baixa em alguém, vai!
Betão levanta-se bruscamente, saca a arma e vai para cima de Elias.
Betão – Tá maluco, brother? Que meu macho? Ele era meu amigo, meu parceiro. E vou parar de comparar ele contigo em respeito a ele, ouviu? Só a ele. Tu já é um merda sozinho mesmo, não precisa de ninguém... E bem que merecia um tiro no meio dessa cara. Mas eu é que não vou desperdiçar bala contigo.
Betão se afasta de Elias, guarda a arma na cintura e quando vai se sentar é surpreendido por Elias que saca sua arma, primeiro em ameaça. Depois, rindo, Elias estende a arma a Betão.
Betão – Que isso?
Elias – Pega.
Betão – O quê?
Elias – Pega. Você vai precisar do máximo de ajuda possível até arranjar outro parceiro.
Betão – Do que tu tá falando?
Elias – Eu tô fora. Matador não disputa com morto. Mata e pronto.
Betão – Ah, pára com isso, Elias... Pára de brincadeira.
Elias – Eu tô com cara de quem tá de brincadeira? (ainda estendendo o revólver) Pega logo essa porra!
Betão permanece calado e imóvel.
Elias – O que é que eu tô fazendo? Você não usa nem a sua direito, vai fazer o que com essa aqui?
Betão – Ô, fica aí, Elias... Tu sabe que é brincadeira...
Elias guarda a arma.
Elias – Acho que eu vou vender ela pra descolar uma graninha pra ficar longe daqui.
Betão – E eu vou fazer o quê?
Elias abre a porta.
Elias – Sei lá, pergunta pro Vado.
Elias sai. Black out.
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Exercício realizado em oficina de Jorge Louraço. Aqui uma antiga personagem minha (Betão) conversa com uma nova (Elias) sobre outra também antiga (Vado).